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Indígena Haliti-Paresi é a primeira médica veterinária da etnia formada pela UFMT

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Assessoria de Comunicação/Funai


 Francisneide Avelino Kanezaquenazokaero é a primeira indígena Haliti-Paresi formada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Ela saiu da aldeia Katyola Winã, próximo ao município de Campo Novo do Parecis (MT), para realizar os estudos e agora se torna referência para sua etnia. A indígena pretende aplicar os conhecimentos adquiridos durante o curso nos projetos desenvolvidos na comunidade.

 

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A formatura ocorreu no último dia 5. Aos 33 anos, Francisneide destaca a emoção de poder voltar para sua aldeia e trabalhar como colaboradora na Cooperativa Agropecuária do Povo Indígena Haliti Paresi (Coopiparesi), local em que foi estagiária. Em entrevista, Francisneide conta os detalhes desta história. Confira:

 

Como você se sente em ser a primeira indígena da etnia Haliti-Paresi a se graduar em Medicina Veterinária?

Estou muito feliz por esta conquista, o meu grande sonho foi realizado. Quando eu tinha 12 anos coloquei na cabeça que um dia iria fazer Medicina Veterinária, porque sempre gostei de cachorros. Foi aí que um dia eu soube que tinha vestibular indígena em Cuiabá (MT), por meio do Proind (Programa de Inclusão Indígena) na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Eu resolvi prestar o vestibular e passei na primeira fase, logo depois fui chamada para a entrevista oral. E fui aprovada.

 

Sua família te incentivou a seguir por esse caminho, de cursar a Medicina Veterinária? Como foi esse processo?

Sim, porque eu sempre soube o que queria fazer e o caminho a seguir. Meus pais sempre colocaram a educação em primeiro lugar, hoje com certeza meu pai está muito feliz, porque conseguimos formar todos os seus filhos. E nós, como filhos, estudamos muito e com muita dedicação fizemos a nossa parte.

 

Como foi o período de estudos na faculdade, enfrentou dificuldades na nova rotina longe das aldeias e da família?

No começo foi muito difícil me acostumar com a cidade grande, morar sozinha longe da família, na época eu era muito grudada com meus pais. Não foi fácil, tive dificuldades em algumas matérias, fiquei quatro anos parada desde que terminei o ensino médio, então passei por dificuldades para retomar os estudos. Mas superei, conforme fui pegando o jeito e conhecendo pessoas que se tornaram meus amigos. Tudo foi melhorando. Foram muitos apoios, tive também tutoras que me ajudaram durante os semestres.

 

Foram poucos episódios ruins, uma vez ouvi uma colega dizer que nós (indígenas) não precisávamos ganhar a bolsa da Universidade porque ganhamos dinheiro do governo. Ali eu vi que tem gente que vive de passado, que não sabe nada da nossa história e que tem muito a conhecer da nossa cultura. Em 2016 perdi meu pai, foi um choque, eu quis desistir do curso e ir embora para a aldeia porque era muito apegada a ele. Conversei muito com meu irmão, escutei conselhos e coloquei na cabeça que não podia fazer esta desistência, sei que seria um momento difícil, mas um dia ia minimizar a dor que sentia.

 

Quando você recebeu o diploma no ato da colação, qual foi o sentimento e o pensamento que veio à sua cabeça?

Chorei de emoção e de tristeza ao mesmo tempo, meu sentimento é de muita gratidão por tudo. Eu pensava “me formei, agora acabou, estou realizada pela minha conquista”. Mas ao mesmo tempo eu queria muito que uma pessoa estivesse presente comigo neste momento, o meu grande pai, Walter Avelino Nezokemse, que sempre colocou a educação em primeiro lugar. Hoje todos os filhos dele estão formados, sou muito grata por isso.

 

Pretende levar os conhecimentos adquiridos para a sua aldeia /comunidade? Como?

Sim, através dos conhecimentos que adquiri durante a graduação. Fiz um estágio de três meses na Coopiparesi, prestando acompanhamento na implantação dos galinheiros/aviários, até concluir toda a instalação. Com isso, fui orientando a nossa comunidade de como deve ser feito o aviário, sempre leste a oeste, conforme os dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Depois disso, a cooperativa resolveu me contratar, porque iam precisar de uma assistência e de assessoria técnica em avicultura para monitorar o manejo dos pintinhos. Fui acompanhando cada galinheiro implantado nas aldeias e agora vou poder dar sequência a esse trabalho, como colaboradora da Coopiparesi.

 

Os indígenas da etnia Haliti-Paresi possuem diversos projetos nas aldeias, inclusive relacionados à avicultura, vocês pretendem ampliar essas atividades?

Sim, no momento estou fazendo o monitoramento, prestando assistência técnica no aviário de frangos semi-caipira. Pretendo auxiliar em outras atividades que estão por vir, farei tudo que estiver ao meu alcance.

 

Qual conselho você dá para os jovens indígenas que também estão pensando em cursar uma faculdade?

Meu conselho é para que escolham um curso que gostem, porque não adianta escolher um curso que você não se interessa. É muito importante fazer o que seu coração manda e ter persistência, garra, vontade, amor pelo seu curso. Tem que estudar muito, que aí você consegue realizar o seu sonho, assim como eu.

 

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